vida cristã

EU E MINHA ANSIEDADE

fevereiro 27, 2017

Às vezes a ordenança “não andeis ansiosos por coisa alguma” parece impossível de obedecer. Por exemplo, em minhas crises de ansiedade eu fico ansiosa... para que a ansiedade passe! E um ciclo interminável e angustiante se inicia. A ansiedade é uma das minhas maiores fraquezas e motivo de constante oração e confissão.

Jamais posso deixar de olhar para a ansiedade como o que ela é: um pecado contra Deus.
Até porque dizem que é a doença do século e acabamos nos conformando com isso. A ansiedade é um medo paralisante e tem inúmeras facetas. Ela vem à tona pelos mais diversos motivos: uma oportunidade que surge quando não estamos preparadas, uma expectativa gerada, uma frustração, a necessidade de fazer uma viagem, tomar uma decisão importante, ou de reagir a uma situação complicada, quando temos que lidar com alguém, ou com o problema de alguém, quando desejamos profundamente agradar as pessoas... E a lista continua. A ansiedade tem a capacidade de bloquear as faculdades mentais de uma pessoa e cegá-la para uma visão mais ampla do que está diante dela. Quando ela chega, a coisa mais tentadora a se fazer é, provavelmente, se entregar. Fechar os olhos e mergulhar nas preocupações e desesperanças. E fazendo isso, não confiamos em Deus. E essa é a raiz da ansiedade: a incredulidade. É não crer que em todas as circunstâncias descritas aqui - e em todas as outras que você puder pensar - Deus conduz nossos passos e mesmo em nossos vacilos Ele cumpre sua vontade.
Mas o que Ele  nos diz a respeito disso? Quais são as coisas que precisamos fazer para não estarmos ansiosas por coisa alguma?

Olhe para o Senhor
A ansiedade cega facilmente, portanto ela não pode ser nosso foco. Quanto mais ela preenche espaço dentro de nós, mais difícil se torna a batalha contra ela. Por isso a primeira coisa a se fazer é olhar para o Senhor no momento da ansiedade.
O ansioso tem uma frustração dentro de si: há uma necessidade latente de concertar e aperfeiçoar as coisas para que nada fuja do seu controle. Não pode haver falhas, nenhuma possibilidade de escape. Há uma tensão o tempo todo para que tudo seja feito conforme o previsto, com 100% de sucesso. Um olhar de reprovação, a sensação de desagrado, uma crítica mal apresentada pode por tudo a perder. Mas o que é perfeito senão Deus?
Deus é Perfeito. Contemplar sua beleza traz uma satisfação, gratidão, segurança e completude que nada mais proporciona. Maravilhar-se com a perfeição de Deus é um consolo para a alma do ansioso. "Porque, quão grande é a sua bondade! E quão grande é a sua formosura!" [Zc. 9:17].

Somos chamados a contemplar a Sua beleza. A contemplar a Sua perfeita natureza. A ler as Escrituras maravilhando-nos do Seu perfeito caráter. A olhar ao nosso redor na Criação, que mesmo quebrada pelo pecado enaltece o Salvador. E podemos levantar os olhos ao Criador e encontrar paz no Belo e Perfeito que nos amou e que está trabalhando em nossos corações imperfeitos e ansiosos para tornarmo-nos cada vez mais perfeitos como Ele. [Hendrika Vasconcelos]

Lembre-se
Quando Jeremias estava em aflição por causa da ira do Senhor sobre Judá ele confessa que sua esperança no Senhor havia perecido, que ele havia se esquecido do bem e que sua alma só se recordava do pranto [Lm. 3:17-20]. Entretanto, em um ponto ele exclama “quero trazer à memória o que me pode dar esperança” [vs.21].
Quando a ansiedade nos atinge, não é difícil esquecermos de todo bem que o Senhor já fez por nós. Fixamos nosso olhar para o que está diante de nós e mais adiante, onde não podemos alcançar. Nos preocupamos e nos angustiamos por coisas que ainda estão por vir, quando Jesus nos diz em sua Palavra que nenhum de nós, com todo nosso cuidado, podemos acrescentar um côvado à nossa estatura [Lc. 12:25]. Nessas horas precisamos experimentar olhar para trás, lembrar de tudo o que já vivemos e trazer à nossa memória as misericórdias do Senhor. E quantas são! A cada dia se renovam!
Há algo mais que precisamos trazer à nossa memória. Quem nos ordena estar em paz e não ansiosos é Aquele que começou a boa obra em nós e a aperfeiçoará. O mesmo que tem escrito todos os nossos dias desde antes da fundação do mundo e que tem a conta de todos os cabelos da nossa cabeça, Aquele que nos deixou sua paz e disse que estaria conosco até a consumação dos séculos. Aquele cuja vontade é perfeita, que é fiel ao conduzir os seus com graça e segurança, como fez com Israel quando os tirou do Egito [Ex.13:21,22].

Fale com Deus
A ansiedade tem a terrível capacidade de tomar nossa mente, coração e nossos ouvidos. Elas falam conosco constantemente sobre como tudo, no fim das contas, vai dar errado. Ela sussurra para nós um cenário imaginário extremamente convincente, mas que não corresponde com a realidade. Responder a essa voz pode ser desgastante e frustrante. É por isso que a Escritura nos instrui a falar com Deus, ao invés debater com nossa ansiedade. As palavras que seguem o comando “não andeis ansiosos” são “sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças”.
Uma das coisas que tenho aprendido na carreira da fé é que a sinceridade é requerida por Deus. Ele quer ouvir de nós quando não conseguimos superar nossas ansiedades, quando não conseguimos enfrentar o medo. Não há nada que lhe seja oculto, mas um coração disposto a declarar abertamente, diante dEle, suas fraquezas e a buscar ajuda é um coração contrito, Ele não despreza [Sl. 51:17]. Quão mais leve se torna a carga quando dizemos “Senhor, estou ansiosa! Não consigo confiar!”? Ele ouve nossas súplicas e nos revela a sua graça e sua direção. Como disse o reformador Lutero, ore, e deixe que Deus se preocupe.

Quando aprendermos de fato que as águas da graça estão à disposição, prontas para nos saciar, e guardarmos em nossos corações todas as promessas do Senhor para nossa vida e, principalmente, para nossa eternidade, saberemos, sempre que a ansiedade e a incredulidade bater à porta, que nós temos segurança e auxílio em Cristo. Lembraremos que todos os nossos medos, uma vez com Ele para sempre, serão banidos e que as aflições dessa vida não podem se comparar com a glória que em nós há de ser revelada [Rm. 8:18].

Um adendo: existem desordens físicas e psicológicas que levam a transtornos graves de ansiedade e esse texto não é sobre isso. Se você apresenta algum sintoma dessa doença é aconselhável buscar orientação médica para que você possa passar por uma análise e, se necessário, um tratamento.

Só a Deus a glória.
Eurídice.

oração

ORAÇÃO: POR QUE DEVO ORAR?

fevereiro 20, 2017

Tem uma frase de R.C. Sproul que chama minha atenção e me confronta muito: "alguém pode orar e não ser um cristão, mas alguém não pode ser um cristão e não orar"¹. A oração é o meio através do qual podemos ter comunhão com Deus, é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio de seu Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias². A oração nas Escrituras é, ao mesmo tempo, uma ordenança e um convite, um dever e um privilégio. O Senhor diz que estará atento às orações feitas por seus filhos, Jesus Cristo ensina-nos a orar e o Espírito Santo intercede por nós. A oração preenche toda a vida cristã, é seu oxigênio, mas infelizmente, por conta da queda da nossa natureza, é um dever negligenciado.
Grande parte de nós, se não todos, temos uma pessoa a quem recorremos nas dificuldades e com quem compartilhamos as alegrias da vida. Geralmente esse amigo próximo está sempre pronto a nos ouvir e, se for sábio, possui palavras de conforto, regozijo, ou repreensão e exortação. Nos sentimos à vontade e podemos passar longas horas conversando e desfrutando de sua companhia e dessa forma esse relacionamento será sempre fortalecido, renovado e cultivado. Guardadas as devidas proporções, essa deve ser nossa atitude para com o Senhor, lembrando sempre que Ele é Senhor, Salvador e Pai, e nos atrai a um relacionamento íntimo e profundo com Ele.
Ampliando mais o campo de percepção, podemos descansar na certeza de que, antes mesmo de pronunciarmos qualquer palavra Deus conhece nosso coração. Ele conhece nossas intenções, nossos desejos, nossos anseios, nossos medos, nossas dúvidas e nossos atos antes mesmo de sequer pensarmos neles. Ele conhece inclusive aquilo que está tão profundo em nosso coração que não conseguimos sondar. Nessas circunstâncias, o Espírito intervém e nos assiste. E diante disso surge a questão: por que devo orar? Essa pergunta surge geralmente dos seguintes pensamentos: "se Deus é soberano e faz tudo segundo a sua vontade, então o fato de eu orar não vai mudar as coisas" e "se Deus é onisciente, ele conhece minhas necessidades e pensamentos, então eu não preciso necessariamente falar as coisas pra Ele. Faz todo sentido confidenciar coisas a um amigo íntimo, visto que se eu não fizer isso ele não saberá o que se passa comigo. Mas Deus já sabe, então... por quê?
Partindo do pressuposto de que orar não é opcional para o cristão, vamos tentar entender porque precisamos cumprir esse dever. O primeiro motivo é óbvio: devemos orar porque Deus assim determina. "Perseverai na oração" [Cl.4:2], "orai sem cessar" [1Ts.5:17]. O dono de toda ciência é quem nos ordena essas coisas e isso por si só é razão suficiente. Ele quer que expressemos com nossos lábios as nossas necessidades e que façamos conhecidas as nossas petições [Fl.4:6].
Deus nos ordena orar também por nossa causa. Um dos motivos pelos quais nos importa orar é para que aprendamos a buscá-lo ardentemente, com o coração voltado para servi-lo e agradá-lo. Oramos para que aprendamos a achar refúgio nEle em todas as nossas necessidades, para que deixemos as cargas das nossas aflições diante dEle, para que nenhum desejo inflame nosso coração, antes sejam apresentados a Ele com sincera devoção e humildade, para que possamos desenvolver gratidão, contemplando sua benignidade ao recebermos o que buscamos, e confiança quando a resposta for contrária, para que constantemente sejamos lembrados da nossa fraqueza e insuficiência e de que Deus é fiel, justo e bom ao nos atender. Em palavras mais simples, somos levados a orar para que não venhamos nós mesmos a cair no sono e na apatia diante do Deus que não dorme e nem descansa. Para que sejamos como aquela viúva insistente da parábola de Jesus, que buscou com persistência o auxílio de um juiz injusto até que ele cedeu e resolveu atendê-la. "E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?" [Lc.18:6,7]

Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor.
Salmos 34:15

Outro motivo pelo qual devemos orar é que somos em tudo beneficiados na oração, e Deus é em tudo glorificado. Deus estabeleceu tudo para sua própria glória e tudo o que ele ordena na sua Palavra é para o bem dos que O amam. Os benefícios da oração para o homem são inúmeros e Ele é exaltado quando reconhecemos sua grandeza e poder através da nossa rendição e sincera humilhação. A oração tem o poder de confrontar, revelar e transformar a natureza impiedosa e perversa do nosso coração, bem como nossa ingratidão e insubmissão diante de Deus. Jonathan Edwards afirmou sobre isso que:

No que diz respeito a Deus, a oração é apenas um reconhecimento sensível de nossa dependência dele para a sua glória. Como ele fez todas as coisas para a sua glória, também precisa ser glorificado e reconhecido por suas criaturas; é justo que ele requeira isto daqueles que são objetos de sua misericórdia. É um reconhecimento apropriado de nossa dependência do poder e da misericórdia de Deus para aquilo de que necessitamos, mas também uma honra apropriada prestada ao grande Autor e Fonte de todo bem.
No que diz respeito a nós mesmos, Deus requer de nós a oração. Orações fervorosas tendem, de muitas maneiras, a preparar o coração. Por meio da oração, desperta-se o senso de nossa necessidade, por meio da oração, a mente é mais preparada para valorizar a misericórdia de Deus. Nossa oração a Deus pode despertar em nós um senso e consideração apropriados de nossa dependência de Deus quanto à misericórdia que pedimos, bem como um exercício apropriado de fé na suficiência de Deus, para que sejamos preparados para glorificar o seu nome quando a misericórdia for recebida.
Jonathan Edwards³

Não devemos usar a soberania de Deus como desculpa para não orar, mas como um impulso, um propulsor para orarmos cada vez mais. Afinal, qual seria o sentido de orar a alguém limitado e impotente? Que nosso olhar para a majestade de Deus e sua vontade seja de confiança e segurança, sabendo que aquele que diz que a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos e que se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve, é fiel e não mente.

Só a Deus a glória.
Eurídice.

¹ A Oração muda as coisas?; R.C. Sproul. Editora Fiel;
² Catecismo Maior de Westminster, pergunta 178: O que é oração?;
³ Sermão de Jonathan Edwards entitulado 'O Deus Altíssimo, que ouve orações'. Trecho retirado do livro 'A Oração muda as coisas?' de R.C. Sproul.

teologia

QUEM É DEUS? PARTE II

fevereiro 13, 2017

No último post nós começamos a estudar sobre quem Deus é. Vimos sobre a fonte da Sua Palavra, que é inerrante e eficaz, e sobre alguns dos Seus atributos. Hoje, dando continuação, vamos estudar mais um pouco sobre a natureza de Deus. Ouvimos e lemos que Deus é Santo e é Amor. Mas o que significa isso? E o que isso tem a ver conosco? Deus se revela Santo e revela seu amor nas Escrituras. Mas não para por aí. Ele ordena que sejamos santos como Ele é [Lv.20:7; 1Pe.1:15-16] e que o amemos como Ele nos amou [1Jo.4:11]. Se é o Senhor que nos ordena e nos capacita, esse deve ser o nosso alvo a cada dia. Devemos nos empenhar para crescer e viver uma vida do agrado do Senhor, obedecendo seus mandamentos.

4. Santidade: Exaltai ao Senhor nosso Deus e adorai-o no seu monte santo, pois o Senhor nosso Deus é santo. [Salmos 99:9]
Deus é absolutamente puro, perfeitamente moral e não há nEle sombra alguma de pecado. Ele é Santo em sua essência e sua santidade é excelente. Dos atributos de Deus, este é talvez o que recebe maior ênfase nas Escrituras e é aquele que, na linguagem de Howe, permeia todos os demais, é o atributo dos atributos. Deus é constantemente chamado de “O Santo” e há inúmeras referências ao Seu Santo Nome. A Santidade do Senhor é a Sua beleza:

“Tributai ao Senhor a glória de seu nome; trazei presentes, e vinde perante ele; adorai ao Senhor na beleza da sua santidade.” | 1 Crônicas 16:29

A Santidade do Senhor é tão magnífica ao ponto de ser celebrada por toda eternidade, com coros celestiais cantando “Santo, Santo, Santo é o Senhor...” [Ap. 4:8; Is. 6:3]. Ele nos ordena a louvar sua santidade, Ele jura por sua santidade e nos santifica segundo a mesma. A santidade de Deus é tão pura, perfeita, imaculada, que o menor dos erros lhe causa repulsa. Ele ama tudo o que obedece seus mandamentos e abomina tudo o que os contraria. 

"Visto que esta excelência parece se colocar acima dê todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor» seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um "braço santo" (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma "santa palavra" (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é "santo" (Salmo 103:1)". | S. Charnock

O Senhor, em sua santidade, é justo, reto, se ira e é bom. A santidade do Senhor manifesta-se nas suas obras [Sl. 145:17], tendo feito tudo o que há muito bom, e tendo designado com perfeição fins a cada uma de suas criaturas, na sua lei [Rm. 7:12] que é santa e justa, e condena todo pecado, e  na sua cruz, a maior demonstração de seu caráter perfeito e seu ódio contra todo pecado. Ali na cruz o Pai derramou sobre o Filho o cálice de sua ira contra toda corrupção e maldade. A graça, em Cristo, cumpriu tudo aquilo que foi exigido pela santidade.

Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. | A.W. Pink

5. Amor: “Deus é amor” [1 João 4:8b]
Ao afirmar que Deus é amor, João não faz referência apenas a ação dEle de amar, mas à sua natureza. Muito se fala do amor de Deus, mas pouco realmente se entende. O Deus de amor não é ingênuo, conivente, muito menos fraco. O amor de Deus nos cativa a ama-lO também. Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro [1 Jo.4:19].
Umas das coisas que precisamos compreender acerca do amor de Deus é que ele é soberano, ou seja, Deus ama a quem lhe apraz: "Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú" [Romanos 9:13]. Jacó não era em nada melhor quem Esaú e nada havia nele que o tornasse digno do amor de Deus - muito pelo contrário. Ainda assim Deus escolheu amá-lo. A causa do amor de Deus é Ele próprio. Seu amor não é influenciável, não é mutável, é incondicional. Não há nada que uma criatura possa fazer para atrair, ou impulsionar o Seu amor. Ele não nos ama por ter achado alguma virtude em nós, mas sim porque escolheu soberanamente nos amar. O amor dEle é eterno e independe de mim e de você. Ele não nos amou para corresponder ao nosso amor, mas nós passamos a ama-lO atraídos por Seu imenso amor. Ele nos amou quanto ainda o odiávamos e estávamos separados dEle por nossos pecados, e não havia nada em mim que pudesse atraí-lO quando ele escolheu me amar.

"Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus." | Efésios 2:4-7

O amor de Deus acha-se intimamente ligado à sua graça, bondade, misericórdia e aliança. Deus é amor e “nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos [1 Jo.4:9]. É nesse sentido que Seu amor excede todo entendimento [Ef. 5:19]. A santidade, justiça e o amor de Deus estão entrelaçados na obra graciosa e redentora de Cristo na cruz. Eis a maior expressão do amor: dar a vida por quem não merece a vida que tem. O misericordioso amor de Deus perdoa nossas transgressões e nos reedifica. A bondade amorosa do Senhor é manifesta na graça comum, no cuidado dEle com suas criaturas, no seu zelo com o mundo natural. E foi por amor que Deus fez uma aliança com seu povo, foi seu amor que nos atraiu para nos relacionarmos com Ele.

Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia;Somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor. | Romanos 8:33-39

Só a Deus a glória!
Eurídice.

Os Atributos de Deus; A.W. Pink - Tradução por Odayr Olivetti;
A Natureza de Deus - James White
Breve Catecismo/Catecismo Maior de Westminster.

teologia

QUEM É DEUS? PARTE I

fevereiro 06, 2017

Gosto muito de um artigo da Jen Wilkin onde ela nos leva a refletir sobre como é muito comum, quando um grupo de mulheres se reúnem para conversar sobre seus dilemas, ou quando a igreja local promove conferências/retiros/estudos bíblicos voltados para mulheres, gastar-se muito tempo buscando desvendar as maravilhas e as riquezas da identidade feminina. Sentimos que precisamos constantemente nos lembrar do quanto somos valiosas, amadas, preciosas. Sentimos que precisamos constantemente afirmar que nossa vida tem algum valor nesse mundo, que precisamos alimentar nossa autoestima, afinal somos filhas do rei, não é mesmo? Mas... será que é isso mesmo? Essas são as nossas reais necessidades? Por que, então, sempre parece que algo está faltando e nunca estamos satisfeitas com nossas descobertas e conosco?
Um dos grandes motivos que nos leva à falta de compreensão de quem somos é o fato de querermos nos descobrir a partir de nós mesmos. Mas há, antes de tudo, um fator determinante, basilar, para todo conhecimento: A compreensão de quem Deus é. É conhecendo a Ele que passamos a conhecer todo o resto. No livro de Oséias há uma exortação do Senhor para que o povo exerça misericórdia e busque o conhecimento de Deus mais do que oferecer sacrifícios [Oséias 6]. Em sua segunda epístola, Pedro saúda os irmãos na fé desejando que a graça e a paz sejam multiplicadas “pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”.

“Se clamares por conhecimento, e por inteligência alçares a tua voz, se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus.”
Provérbios 2:3-5

O instrumento através do qual podemos conhecer a Deus é a sua Palavra, a Santa Escritura. Acerca dela podemos dizer que é “a única, suficiente, correta e infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos” ¹. O reformador João Calvino chegou a afirmar, no primeiro volume das Institutas, que “aqueles a quem o Espírito Santo interiormente ensinou aquiescem firmemente à Escritura, e esta é indubitavelmente autenticada por si mesma”. Sendo assim, é a ela, fonte de água perene, que vamos recorrer.
O Breve Catecismo de Westminster diz acerca de Deus: “Deus é Espírito [Jo.4:24], infinito, eterno e imutável em Seu Ser [Sl.90:2 e Tg.1:17], sabedoria [Rm.11:33], poder, santidade [Ap.4:8], justiça, bondade e verdade [Ex.34:6].” Os atributos de Deus são, entre muitos: a asseidade de Deus, seus decretos, imutabilidade, soberania, glória, santidade, amor e graça. A Bíblia nos fala acerca desses atributos de Deus e eu queria examina-los com vocês. Estudar esses atributos é estudar o caráter de Deus. Para que esse texto não fique muito extenso, vou dividi-lo em algumas partes, provavelmente duas, e tentar abordar cada um dos atributos da forma mais sucinta possível.
Antes de tudo eu gostaria de deixar claro que não sou nenhuma especialista no assunto. Não tenho curso em teologia, apesar de ter, por ela, uma paixão muito grande. Apenas tenho muita sede e sei onde posso achar água. Tenho muita fome e sei onde encontrar pão. Estou aprendendo, de mãos dadas com o Pai, e espero que vocês também tenham a mesma disposição. Oro para que o Espírito Santo seja nosso mestre e para que Suas doces palavras escorram como mel em nossos corações, para que cresçamos, juntamente, em conhecimento, em graça e em piedade. Então vamos lá!

1. Asseidade: “Disse Deus a Moisés: “Eu sou o que sou” [Ex. 3:14]
Deus é e existe por si e em si mesmo, não sendo causado, nem dependido de outro ser fora de si. Ele é criador de todas as coisas, e nada o criou. Ele é, e é absoluto. À luz do que diz o profeta Isaías, Ele em si é tudo e se basta.

Quem guiou o Espírito do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?
Isaías 40:13,14

Deus tem em si toda a vida e dEle se originam todas as coisas, nada houve antes dEle. Ele tudo gera e de nada é gerado. Houve um “tempo” em que nada havia, apenas Deus. No princípio, nas palavras de A.W. Pink², nada havia além de Deus. Pela eternidade (não por uns anos, séculos, ou milênios), desde sempre Deus esteve só, pleno, perfeito, completo, suficiente.

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.
Romanos 11:33-36

2. Imutabilidade: “Porque eu, o Senhor, não mudo. ” [Ml. 3:6]
Deus não está sujeito a mudanças em seu ser. Não pode melhorar, pois é perfeito e, sendo perfeito não pode se deteriorar. Seus atributos e seus decretos permanecem os mesmos, imutáveis, invariáveis. Não há nada que possa corromper sua Santidade, afetar seu poder, ou abalar seu amor, pois são eternos. Sua vontade permanece e jamais será mudada. Seus dons e vocação são irrevogáveis [Rm. 11:29]. E nisto podemos descansar.
Há aqui uma diferença abismal entre criatura e Criador: nós somos inconstantes, mutáveis. Deus não muda.  A Ele a glória por isso! Podemos depositar toda nossa confiança nAquele em quem vivemos, nos movemos e existimos [At. ‘7:28], nAquele que sustenta nossa existência sem um vacilo sequer. Podemos estar seguros em saber que ainda que as montanhas se desviem e os outeiros tremam, a benignidade do Senhor não de desviará de nós, nem o concerto de Sua paz mudará [Is. 54:10].

3. Soberania: “Mas o nosso Deus está nos céus; Ele faz tudo o que lhe apraz.” [Salmo 115:3]
Deus é o Altíssimo, elevado acima de qualquer das suas criaturas. Sua soberania é o exercício da sua superioridade completa e incontestável. Seu agir é perfeito e Ele faz tudo conforme Sua vontade. Ele tem o controle eterno de todas as coisas e nada pode impedir seu querer.

Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?
Isaías 43:13

Mediante Sua soberania Deus estabeleceu o mundo e tudo o que nele há, estabeleceu todas as suas criaturas, e não apenas as criou, mas determinou todas as suas atribuições e um propósito eterno. Soberanamente Ele as pôs nas condições que pareceu bem aos Seus olhos e as rege. Não há rivalidade para Ele, pois Ele é sobre todas as coisas.
É um prazer para o cristão saber que sua vida é direcionada por Deus e que Ele faz o que Ele quer. É esse entendimento que devia nos colocar de joelhos para glorificá-lO, porque se Ele é soberano, então não há nada na nossa existência que esteja além ou aquém do que Senhor de todas as coisas deseja. Nenhuma alegria, nenhuma aflição, nenhuma dor, nenhum mal, nenhum bem, nenhuma virtude foge do ordenar do Eterno. Acerca disso, em uma das suas exposições, Spurgeon afirmou o seguinte:

"Não há atributo mais consolador para os Seus filhos do que o da soberania de Deus. Sob as circunstâncias mais adversas, em meio às mais duras provações, eles crêem que Deus na Sua soberania ordenou as suas aflições, que Ele as dirige soberanamente, e que na Sua soberania santificará todas elas! Para os filhos de Deus não deveria haver nada por que lutar mais zelosamente do que a doutrina de que o seu Senhor domina toda a criação — do reinado de Deus sobre todas as obras de Suas mãos — do trono de Deus e Seu direito de ocupar esse trono. Por outro lado, não há doutrina mais odiada pelos mundanos, nenhuma verdade de que tenham feito joguete a tal ponto como a grandiosa, estupenda, porém certíssima doutrina da soberania do infinito Jeová.”³

Irmãos e irmãs, devemos crer com regozijo nesta verdade: Deus é soberano. Deus é pleno, imutável e soberano. E a soberania dEle abrange todos os aspectos da nossa existência: desde a criação até a salvação dos Seus amados. Afirmar a soberania do Senhor sobre todas as esferas da nossa vida não exclui nossa responsabilidade pessoal (que estudaremos mais adiante), mas não podemos, por um instante sequer, esquecer que sem Ele nada podemos fazer [Jo. 15:5] e que sem Ele nada do que foi feito se fez [Jo. 1:3].

Semana que vem vamos continuar com a segunda parte do estudo sobre quem é Deus. Que essa breve descrição possa incentivá-las a buscar aprofundar seus conhecimentos acerca do nosso Amado, tendo, sobretudo, a Sua Palavra como fonte. Que Deus as abençoe.
Só a Deus a glória.

Eurídice.

¹ Confissão de Fé Batista de 1689. Um Catecismo Puritano, compilado por C.H. Spurgeon;
² Os Atributos de Deus; A.W. Pink - Tradução por Odayr Olivetti;
³ C.H. Spurgeon; Sermão n°77 pregado na manhã de Domingo, 04 de Maio de 1856;
As Institutas - Edição Clássica; João Calvino;
Breve Catecismo/Catecismo Maior de Westminster.