ORAÇÃO: POR QUE DEVO ORAR?

fevereiro 20, 2017

Tem uma frase de R.C. Sproul que chama minha atenção e me confronta muito: "alguém pode orar e não ser um cristão, mas alguém não pode ser um cristão e não orar"¹. A oração é o meio através do qual podemos ter comunhão com Deus, é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio de seu Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias². A oração nas Escrituras é, ao mesmo tempo, uma ordenança e um convite, um dever e um privilégio. O Senhor diz que estará atento às orações feitas por seus filhos, Jesus Cristo ensina-nos a orar e o Espírito Santo intercede por nós. A oração preenche toda a vida cristã, é seu oxigênio, mas infelizmente, por conta da queda da nossa natureza, é um dever negligenciado.
Grande parte de nós, se não todos, temos uma pessoa a quem recorremos nas dificuldades e com quem compartilhamos as alegrias da vida. Geralmente esse amigo próximo está sempre pronto a nos ouvir e, se for sábio, possui palavras de conforto, regozijo, ou repreensão e exortação. Nos sentimos à vontade e podemos passar longas horas conversando e desfrutando de sua companhia e dessa forma esse relacionamento será sempre fortalecido, renovado e cultivado. Guardadas as devidas proporções, essa deve ser nossa atitude para com o Senhor, lembrando sempre que Ele é Senhor, Salvador e Pai, e nos atrai a um relacionamento íntimo e profundo com Ele.
Ampliando mais o campo de percepção, podemos descansar na certeza de que, antes mesmo de pronunciarmos qualquer palavra Deus conhece nosso coração. Ele conhece nossas intenções, nossos desejos, nossos anseios, nossos medos, nossas dúvidas e nossos atos antes mesmo de sequer pensarmos neles. Ele conhece inclusive aquilo que está tão profundo em nosso coração que não conseguimos sondar. Nessas circunstâncias, o Espírito intervém e nos assiste. E diante disso surge a questão: por que devo orar? Essa pergunta surge geralmente dos seguintes pensamentos: "se Deus é soberano e faz tudo segundo a sua vontade, então o fato de eu orar não vai mudar as coisas" e "se Deus é onisciente, ele conhece minhas necessidades e pensamentos, então eu não preciso necessariamente falar as coisas pra Ele. Faz todo sentido confidenciar coisas a um amigo íntimo, visto que se eu não fizer isso ele não saberá o que se passa comigo. Mas Deus já sabe, então... por quê?
Partindo do pressuposto de que orar não é opcional para o cristão, vamos tentar entender porque precisamos cumprir esse dever. O primeiro motivo é óbvio: devemos orar porque Deus assim determina. "Perseverai na oração" [Cl.4:2], "orai sem cessar" [1Ts.5:17]. O dono de toda ciência é quem nos ordena essas coisas e isso por si só é razão suficiente. Ele quer que expressemos com nossos lábios as nossas necessidades e que façamos conhecidas as nossas petições [Fl.4:6].
Deus nos ordena orar também por nossa causa. Um dos motivos pelos quais nos importa orar é para que aprendamos a buscá-lo ardentemente, com o coração voltado para servi-lo e agradá-lo. Oramos para que aprendamos a achar refúgio nEle em todas as nossas necessidades, para que deixemos as cargas das nossas aflições diante dEle, para que nenhum desejo inflame nosso coração, antes sejam apresentados a Ele com sincera devoção e humildade, para que possamos desenvolver gratidão, contemplando sua benignidade ao recebermos o que buscamos, e confiança quando a resposta for contrária, para que constantemente sejamos lembrados da nossa fraqueza e insuficiência e de que Deus é fiel, justo e bom ao nos atender. Em palavras mais simples, somos levados a orar para que não venhamos nós mesmos a cair no sono e na apatia diante do Deus que não dorme e nem descansa. Para que sejamos como aquela viúva insistente da parábola de Jesus, que buscou com persistência o auxílio de um juiz injusto até que ele cedeu e resolveu atendê-la. "E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?" [Lc.18:6,7]

Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor.
Salmos 34:15

Outro motivo pelo qual devemos orar é que somos em tudo beneficiados na oração, e Deus é em tudo glorificado. Deus estabeleceu tudo para sua própria glória e tudo o que ele ordena na sua Palavra é para o bem dos que O amam. Os benefícios da oração para o homem são inúmeros e Ele é exaltado quando reconhecemos sua grandeza e poder através da nossa rendição e sincera humilhação. A oração tem o poder de confrontar, revelar e transformar a natureza impiedosa e perversa do nosso coração, bem como nossa ingratidão e insubmissão diante de Deus. Jonathan Edwards afirmou sobre isso que:

No que diz respeito a Deus, a oração é apenas um reconhecimento sensível de nossa dependência dele para a sua glória. Como ele fez todas as coisas para a sua glória, também precisa ser glorificado e reconhecido por suas criaturas; é justo que ele requeira isto daqueles que são objetos de sua misericórdia. É um reconhecimento apropriado de nossa dependência do poder e da misericórdia de Deus para aquilo de que necessitamos, mas também uma honra apropriada prestada ao grande Autor e Fonte de todo bem.
No que diz respeito a nós mesmos, Deus requer de nós a oração. Orações fervorosas tendem, de muitas maneiras, a preparar o coração. Por meio da oração, desperta-se o senso de nossa necessidade, por meio da oração, a mente é mais preparada para valorizar a misericórdia de Deus. Nossa oração a Deus pode despertar em nós um senso e consideração apropriados de nossa dependência de Deus quanto à misericórdia que pedimos, bem como um exercício apropriado de fé na suficiência de Deus, para que sejamos preparados para glorificar o seu nome quando a misericórdia for recebida.
Jonathan Edwards³

Não devemos usar a soberania de Deus como desculpa para não orar, mas como um impulso, um propulsor para orarmos cada vez mais. Afinal, qual seria o sentido de orar a alguém limitado e impotente? Que nosso olhar para a majestade de Deus e sua vontade seja de confiança e segurança, sabendo que aquele que diz que a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos e que se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve, é fiel e não mente.

Só a Deus a glória.
Eurídice.

¹ A Oração muda as coisas?; R.C. Sproul. Editora Fiel;
² Catecismo Maior de Westminster, pergunta 178: O que é oração?;
³ Sermão de Jonathan Edwards entitulado 'O Deus Altíssimo, que ouve orações'. Trecho retirado do livro 'A Oração muda as coisas?' de R.C. Sproul.

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