CARÊNCIAS EMOCIONAIS

março 27, 2017

A minha carne e o meu coração desfalecem... [Sl. 73:26]
Eu já caí, mais vezes do que gostaria, no erro de deixar meu coração na superfície. E a facilidade com a qual ele era fisgado era muito maior do que poderia me orgulhar. Essa minha disposição e todas as complicações que se derivaram dela podiam ser resumidas em uma palavra: carência.
A carência é uma armadilha. Faz da necessidade natural do homem de amar, ser amado e se relacionar um veneno, e do prazer saudável de estar com alguém um vício. A carência é um propulsor para a criação de ídolos no coração. E a carência faz o coração desfalecer. O que é evidente, visto que é humanamente impossível satisfazer um coração carente e sedento. Nenhum homem consegue ser tudo para outro, não é possível que um ser humano consiga corresponder a esse desejo e, segundo Ernest Becker, carregar o fardo da divindade.
A carência gera expectativas inalcançáveis. Quanto mais elas são alimentadas, mais elas se multiplicam e a relação se desgasta à medida que o carente pede por mais atenção, mais carinho, mais e mais e mais... E o preço pago por ambas as partes acaba sendo excessivamente alto: um se torna um a espécie de deus para o outro e já não há mais relacionamento, mas uma busca por redenção. E como toda expectativa que vai além da realidade, ela acabará em frustrações, feridas, corações partidos, esgotamento mental, emocional, físico e tantas quantas forem as consequências.
A carência aprisiona. Tornamos pessoas reféns da nossa necessidade de afirmação e satisfação, transformando-as em nossa fonte particular de amor. Quando essa fonte não jorra água, nos machucamos e machucamos o outro à medida que exigimos dele o que ele não pode dar. A partir daí muitas cadeias se formam, surge a dificuldade de perdoar e afastamos queridos de nós, por não sabermos lidar com as suas [e nossas próprias] limitações.
A carência usurpa a graça do amor verdadeiro. Ela faz com que nos concentremos nas nossas necessidades, em como eu vou me sentir amada, como vou me sentir segura, como o próximo vai se doar por mim. Mas o amor não busca os próprios interesses, antes ele tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta [1Cor. 13]. O amor é [também] um movimento em direção a alguém. Envolve sacrifícios e abnegação. Quando amamos com sinceridade e com o coração preenchido e satisfeito, nossas atitudes e pensamentos se convergem em direção às necessidades do próximo, em como servir, agradar, abençoar e se doar.
A carência tem solução. Pessoas satisfeitas são livres dessa armadilha. Essa satisfação não é encontrada em si mesmo, nem em coisas externas, em realizações, ou momentos. A satisfação plena da alma é encontrada em Cristo. Agostinho sintetizou esse conceito quando disse “fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Se queremos descanso para nosso coração inquieto e carente, se queremos segurança, afirmação, identidade, alguém amoroso, bondoso, fiel e acima de tudo perfeito, podemos olhar para Ele. “Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre.” [Sl. 73:25,26]. Quando o coração de Asafe desfaleceu, ele buscou fortaleza e esperança no único que é capaz de garanti-las.
Ter relacionamentos é bom e é importante. Deus nos criou para nos relacionarmos. "É melhor serem dois do que um" [Ec. 4:9]. Mas quando nossa fonte de amor está fincada em Cristo e em Seu amor por nós, voltamos à nossa posição de dependentes dEle, de Sua graça, que é melhor que a própria vida, e somos livres para transbordar esse amor aos que nos cercam. Aprendemos a atentar para o que é dos outros [e, nesse sentido, compreender a forma de amar de cada um] e não para o que é nosso.

Só a Deus a glória.
Eurídice.

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